Programas

dedicamos uma especial atenção ao universo da música ibérica e suas influências  

CICLO DE MÚSICA ANTIGA

PELO INTERIOR DO PATRIMÓNIO 2021-2022

Com o apoio da Direcção Geral das Artes e Ministério da Cultura o Iberian Ensemble promove um dialogo entre as sonoridades do barroco ibérico, italiano, francês e alemão, e a arquitetura nacional de elevado interesse histórico. Este ciclo conta ainda com o apoio do Centro Cultural de Amarante, Rota do Românico, Comunidade Intermunicipal de Tâmega e Sousa, Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda do Mosteiro de Arouca, Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo e Diocese do Porto.

Os concertos iniciam no dia 2 de julho de 2021, no Centro Cultural de Amarante e prolongam-se até fevereiro de 2022. Em cada concerto, haverá espaço para uma abordagem junto do público, explicando o enquadramento histórico do local, repertórios selecionados e instrumentos utilizados, respondendo assim aos objetivos deste ciclo de música antiga - Programação e Desenvolvimento  de Públicos.

Todos os concertos têm entrada gratuita condicionada à lotação dos espaços.

Discovering Jommelli

O Iberian Ensemble associa-se, em 2021 à 9th Edition of Early Music Day Festival com um recital no dia 21 de março; https://www.earlymusicday.eu/2021-events/ apresentando o programa Discovering Jommelli. A obra de N. Jommelli (1714-1774) destaca-se nomeadamente pela sua produção operática, a qual chamou a atenção da corte portuguesa de D. José I, logo após o período Pós-Terramoto de 1755. O compositor viria a ser um predileto do Rei D. José I, e a sua relação com a corte seria fecunda e constante, com especial enfoque na sua produção musical para a Orquestra da Real Câmara de Lisboa, nas décadas de 1760-70. Neste período foram executadas pela orquestra mais de 25 óperas, serenatas e oratórias do compositor, o que revela a importância da sua obra no contexto e desenvolvimento da cultura musical na segunda metade de setecentos. Descobrindo a sua obra camerística Six Sonatas for Two German Flutes or Violins and with a thorough Bass for the Harpsichord or Violoncello, editado em Londre em 1751, é o mote para este recital, pois na verdade não sabemos com exatidão se a sua obra camerística terá, também, chegado às salas de concerto da capital portuguesa. Todas as seis sonatas assentam numa linguagem estética recorrente na época, num estilo galante. O estilo galante terá tido a sua origem na corte francesa no início do séc. XVIII, no entanto, já em meados do século, este movimento estético galenterie rapidamente viria a manifestar-se um pouco por toda a Europa, perante um período fértil na divulgação e internacionalização da música sem fronteiras. Numa primeira fase, o Projeto Jommelli inicia em 2021 com a apresentação das Sonatas I, V e VI, interpretadas por duas flautas traversas, violoncelo barroco e cravo.

The Iberian Ensemble joins, in 2021, the 9th Edition of the Early Music Day Festival with a recital on March 21st ; https://www.earlymusicday.eu/2021-events/ with the program Discovering Jommelli. N. Jommelli's work (1714-1774) stands out in particular for its operatic production, which drew the attention of the portuguese court of D. José I, shortly after the Post-Earthquake period of 1755. The composer would become a favorite of King D. José I, and his relationship with the court would be fruitful and constant, with a special focus on his musical production for the Royal Chamber Orquestra of Lisbon, in the 1760-70 period. During this period, more than 25 operas, serenades and oratories of the composer were performed by the orchestra, which reveals the importance of his work in the context and development of musical culture in the second half of the seventeen hundreds. Discovering his chamber work Six sonatas for two German flutes or Violins and with a thorough bass for the Harpsichord or Violoncello, published in London in 1751, is the theme for this recital, since in reality it is not known if his chamber works would have also reached the concert halls of the portuguese capital. All of the six sonatas are written in the esthetic language of the period, the galante style. The galante style would have had its origins in the french court in the early XVIII century, having shortly after started to have regional manifestations throughout Europe, helped by an unprecedented period of international exchange within the musical world. At a first phase, the Jommelli project starts in 2021 with the presentation of the Sonatas I, V and VI, performed by two traverso, baroque cello and harpsichord.

Música para Flauta no tempo de D. Maria I (Lisboa, 1734 - Rio de Janeiro, 1816)

O mote para este programa de concerto é a Música para Flauta no tempo de D. Maria I (Lisboa, 1734 - Rio de Janeiro, 1816), em particular as últimas décadas de setecentos. Com a deslocação da família real para o Brasil, em 1808, o gosto e o requinte musical vivido na época também acompanhou a corte de D. João VI. Parte deste espólio musical praticado dentro da corte desde as últimas décadas de setecentos, foi vivenciado no Brasil na corte joanina, nas casas da alta aristocracia e ricos comerciantes de Salvador da Bahia e Rio de Janeiro. A comprovar esta prática musical temos as obras de Jommelli (1714-1774) e D. Perez (1711-1778) localizadas nos arquivos brasileiros.
Dedicando a sua escrita à flauta, Avondano filho do violinista genovês Pietro Giorgio Avondano estabelecido, em Lisboa, ao serviço da corte de D. João V, e Jommelli são duas referências desta influência italiana exercida no meio erudito da música portuguesa da segunda metade do séc. XVIII, agora aqui retratadas neste concerto, e complementado com as obras dos espanhóis António Pedro Rodil (c.1720-1788) e os irmãos Pla.
NICOLO JOMMELLI (1714-1774) - Compositor italiano, apesar de destacar-se na sua produção operática, deu sempre grande importancia aos sopros na sua escrita. Assim, publicando em 1751, um conjunto de 7 sonatas para duas flautas e baixo continuo. D. José I, rei de Portugal, terá tentado convencer Jommelli a vir para Portugal, porém, apenas terá conseguido um acordo assinado em 1769, entre a coroa portuguesa e este compositor, visando a sua produção musical e as atividades da Real Orquestra de Câmara de Lisboa. Num estilo galant estas sonatas organizam-se em três andamentos. No caso caso da Sonata à tré con due flauto traverse e basso - nº 6 (1751) temos Spirituoso, Andante e Allegro.
JUAN BAUTISTA PLA (C.1720-1773) -De origem espanhola, Juan Bautista Pla é irmão de José Pla (1728-1762) famosos oboistas, foram importantes instrumentistas e compositores de música instrumental. Começaram as suas viagens ao estrangeiro desde a década de 1740, tendo passado pela primeira vez em Portugal, em 1747, em finais de 1751, Juan e José já se encontravam em Paris, e em 1753, em Londres onde actuaram em vários concertos organizados pelo violinista Passerini. Entre 1754-55 Juan esteve ao service da Orquestra do Duque de Wurttemberg a qual tinha como director musical Joemmlli. Devido à trajectoria conjunta deste dois instrumentistas, muitas das obras editadas foram mencionadas como dos irmãos Pla, não fazendo uma distinção entre qual dos dois será efectivamente o autor destas composições. Porém, no caso desta obra Sonata nº 2 en Ré Menor para dos flautas, publicada em 177o, tudo indica que será de Juan, uma vez queue José já teria falecido. O estilo e qualidade da obra dos Pla é algo irregular, a maioria das peças localizadas são para trios com baixo continuo; 2 oboés, 2 flautas (os Pla para além de bons oboistas também tocavam flauta, como era comum na época), 2 violinos, 2 pares de violas, oboe e violin, ou flauta e violino. Em finais de 1760, Juan regressa em definitivo a Lisboa e integra a Orquestra Real, talvez até sob recomendação de Jommelli, onde ficaria o resta da sua vida. Porém, a partir de 1773 o seu percurso é algo misterioso, e não existe informação documental.
PEDRO ANTÓNIO AVONDANO (1714-1788) - trio nº 1 publicado por volta 1766, é uma obra escrita originalmente para dois violinos e baixo continuo (aqui proposta numa interpretação por flautas traversas) por Avondano, destacado violinista e compositor ao serviço da Real Orquestra de Câmara de Lisboa. Avondano foi um dos mais célebres compositores de música instrumental na segunda metade de setecentos, em Portugal. Em paralelo com a sua atividade artística, também era o principal responsável por dinamizar as noites em que reuniam os membros da colónia britânica na Assembleia das Nações Estrangeiras. Neste sentido, é provável que os Minuetos de Lisboa tenham sido escritos originalmente para este género de eventos, os quais se mantiveram em actividade regular até ao final do século. O flautista espanhol António Rodil (c.1730-1787), 1º flauta da Orquestra Real e colega de Avondano, a convite deste, participava com regularidade nestes saraus musicais. Em linhas gerais, estes trios caracteriza-se por movimentos melódicos elegantes, frases simples, mas cativantes e de fácil percepção para o ouvinte.Com a obra de C. P. E. BACH (1714-1788), uma vez que 2014 foi celebrado a Ano Jubileu deste destacado compositor, pretende-se com a presença desta peça realizar uma mostra da sua valiosa obra para sopros.

O ESPLENDOR DA MÚSICA BARROCA EM PORTUGAL E ESPANHA

O Iberian Ensemble dedica este programa à música setecentista portuguesa e espanhola partindo da flauta traversa, violoncelo barroco e cravo/órgão. Começando pela figura central da música instrumental no reinado de D. João V, Carlos Seixas (1704-1742) destaca-se pela sua exímia capacidade técnica e virtuosismo. Ainda jovem, com apenas dezasseis anos, viaja para Lisboa e viria a assumir o importante cargo de organista na Igreja da Sé Patriarcal. Apesar de nunca ter estudado fora de Portugal, a vivência cosmopolita proporcionado pela coroa portuguesa no reinado de D. João V, viria a ficar marcado pela forte influência da música italiana na sua carreira. A sua extensa obra é hoje objeto de estudo, interpretação e redescoberta, nomeadamente as suas peças para instrumento de tecla. Neste recital apresentamos uma versão da tocatta em sol menor para cravo, agora interpretado pela flauta e baixo-continuo. Neste ambiente musical, por volta de 1720 a convite da corte chegava a Lisboa Domenico Scarlatti (1685-1757), filho do famoso compositor Alessandro Scarlatti. Viria a assumir as funções de compositor régio e professor dos infantes. Das suas mais de 550 sonatas e essercizi apenas 8 não são para cravo solo, mas para um instrumento melódico (não especificado) e baixo continuo. Hoje estão devidamente identificadas no seu catálogo pelo musicólogo R. Kirkpatrik "K"; 73, 77, 78, 81, e 89-91. Neste recital apresentamos K91 com a flauta como solista. A vida musical portuguesa na segunda metade do séc. XVIII viria a ficar marcada pelo contributo dado pelo mestre Pedro António Avondano (1741-1788), filho de músico italiano. Violinista, programador, compositor, foi um dos mais célebres compositores de música instrumental da segunda metade do século. Em paralelo com a sua intensa atividade artística, também foi o principal responsável por dinamizar as noites em que reuniam os membros da colónia britânica na Assembleia das Nações Estrangeiras. Neste sentido, é provável que a sonata em Fá maior para violoncello e continuo, tenha sido escrito para este género de eventos, os quais se mantiveram em actividade regular até ao final do séc. XVIII. Contemporâneo de Avondano, Francisco Xavier Baptista (17?-1797) foi um dos compositores mais marcantes no domínio do repertório português para instrumentos de tecla da segunda metade de setecentos. Da sua produção destaca-se a coleção de doze sonatas para cravo publicada em Lisboa por volta de 1770, figura entre as raras obras para instrumentos de tecla impressas em Portugal ao longo desse século. Apesar da importância da sua obra e da relevância da sua atividade profissional como organista da Basílica de Santa Maria de Lisboa, as informações biográficas atualmente disponíveis sobre Francisco Xavier Baptista continuam a ser escassas. Encerramos este programa com a Sonata em Sol Maior de Luis Misón (1720-1766), compositor espanhol, virtuoso na flauta e oboé. Buscamos esta relação ibérica e inevitável convivência ao longo do período barroco na música, e nas artes em geral. Filho de músicos terá recebido a sua instrução musical familiar desde muito novo. Por volta de 1749 entra ao serviço da orquestra da Real Capilla de Madrid, como quarto oboé. Em complemento às suas funções e obrigações junto da orquestra real, a sua intensa atividade enquanto flautista, oboísta, acompanhado pela sua produção enquanto compositor, levou a atuar nos principais palcos da cidade de Madrid, e muito provavelmente em Lisboa. Em 1752, esteve ausente da orquestra, talvez sem ter solicitado a devida dispensa, e recorreu aos seus contactos com o embaixador de Portugal para recuperar o seu lugar na orquestra real.